
O Banco do Brasil (BBAS3) entregou lucro líquido de R$ 4,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026. O número representa alta de 33% frente ao trimestre anterior, mas uma queda de 34% em relação aos R$ 7,37 bilhões registrados no mesmo período de 2025. Mesmo com a recuperação sequencial, o BTG Pactual (BPAC11) mantém visão pessimista sobre a qualidade dos resultados e projeta um primeiro semestre ainda pressionado por provisões e inadimplência no agronegócio.
O lucro de R$ 4,9 bilhões no 1T26 confirma que o Banco do Brasil está respirando melhor depois de um 2025 que foi, no mínimo, sufocante. No terceiro trimestre do ano passado, o banco entregou apenas R$ 3,78 bilhões, assustando o mercado. A recuperação começou no 4T25 e seguiu no 1T26, mas ainda estamos longe dos patamares que os investidores se acostumaram a ver.
Pra ter uma ideia da distância: no 1T25, o banco lucrou R$ 7,37 bilhões. A queda de 34% na comparação anual mostra que a crise do agronegócio ainda não ficou pra trás. A inadimplência acima de 90 dias alcançou 5,17% da carteira total, enquanto no segmento de agronegócio esse número bateu 6,09%, um patamar bem acima do histórico do banco.
A margem financeira bruta do banco apresentou crescimento tímido, beneficiada pela Selic elevada e pela base de depósitos a prazo robusta, mas insuficiente pra compensar o peso das provisões. O guidance de 2026 projeta provisões entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões, um volume que, na prática, vai continuar comendo boa parte do resultado operacional.
Antes mesmo do resultado sair, os analistas do BTG Pactual já tinham sinalizado cautela. A estimativa do banco de investimentos apontava lucro entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões, de 15% a 30% abaixo do consenso de mercado. O Banco do Brasil superou essa projeção mais conservadora, mas isso não mudou o tom do BTG.
A tese pessimista se apoia em três pilares. Primeiro, a baixa visibilidade sobre quando a inadimplência do agronegócio vai, de fato, estabilizar. Os analistas do BTG usaram uma analogia que ficou famosa no mercado: "a deterioração dos resultados veio de elevador, enquanto a recuperação vai subir de escada". Ou seja, a melhora existe, mas é lenta e incerta.
Segundo, as provisões permanecem elevadas e podem até aumentar nos próximos trimestres. O custo de crédito implícito no guidance trimestral é alto, e há risco de que as perdas com o agro superem o que o próprio banco projetou. Se a safra 2025/2026 enfrentar problemas climáticos ou queda nos preços das commodities, a situação pode piorar antes de melhorar.
Terceiro, o crescimento da carteira de crédito é modesto. O guidance de 2026 projeta expansão de apenas 0,5% a 4,5%, com a estratégia clara de reduzir exposição ao agro (entre -2% e +2%) e crescer em pessoas físicas (+6% a +10%). A transição faz sentido, mas leva tempo pra aparecer no resultado.
O BTG mantém recomendação neutra para BBAS3, com preço-alvo de R$ 25 para 2026. Com a ação negociando na faixa dos R$ 24,44, o upside implícito é de apenas 2,3%. Na visão dos analistas, o papel não está caro, mas também não oferece margem de segurança suficiente num cenário de incerteza sobre a velocidade da recuperação.
Em relação aos dividendos, o BTG projeta payout de aproximadamente 30% em 2026. A prioridade da gestão, segundo os analistas, é preservar capital pra atender requisitos regulatórios. Quem comprou Banco do Brasil esperando dividendos gordos como os de 2023 e 2024 vai precisar de paciência. O dividend yield projetado fica entre 7% e 8%, decente, mas abaixo do que o mercado já viu do banco.
Não tem como falar do Banco do Brasil sem falar do agro. O BB é, historicamente, o maior financiador do agronegócio brasileiro, e essa posição, que foi uma vantagem competitiva por décadas, virou o calcanhar de Aquiles nos últimos trimestres.
A crise começou em meados de 2025, quando uma combinação de queda nos preços de grãos, custos elevados de insumos (diesel e fertilizantes dolarizados) e eventos climáticos adversos levou a uma onda de inadimplência entre produtores rurais. O banco teve que revisar o guidance duas vezes em 2025, algo raro na história da instituição.
No 1T26, os contratos mais problemáticos da safra anterior estão sendo gradualmente renegociados ou encerrados. A nova política de risco implementada pela gestão reduziu a exposição a operações de maior risco. Mas o mercado ainda espera que a inadimplência do agro atinja um pico de 5,8% a 6% no segundo trimestre de 2026, antes de começar a ceder.
Pra quem quer entender melhor como analisar a saúde financeira de um banco como o BB, vale dar uma olhada no artigo sobre Balanço Patrimonial: o que é e como funciona, que explica os principais indicadores de forma didática.
O BTG não está sozinho na cautela. A XP Investimentos publicou relatório com o título "melhora, mas não é uma inflexão", reforçando que o lucro do 1T26 é um passo na direção certa, mas não resolve a questão estrutural do agro. A Genial Investimentos projeta que 2026 deve marcar o início da recuperação, mas reconhece que o primeiro semestre será o mais difícil.
Já o Bank of America elevou o preço-alvo da ação, mas manteve recomendação neutra. A mensagem dos grandes bancos é unânime: o Banco do Brasil é um ativo barato por métricas tradicionais (negocia abaixo de 4x lucros projetados), mas o desconto existe por um motivo. E esse motivo se chama agronegócio.
Entre os poucos otimistas, o Banco Safra mantém visão construtiva, argumentando que o pior já ficou pra trás e que o segundo semestre de 2026 deve trazer uma melhora mais visível nos indicadores de crédito.
O Banco do Brasil divulgou projeções oficiais pra 2026 que mostram uma tentativa de retomada gradual. Os principais números do guidance são:
Lucro líquido ajustado: entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões. Se entregar o ponto médio (R$ 24 bilhões), representaria crescimento de 16% sobre os R$ 20 bilhões de 2025. Se atingir o topo da faixa, o avanço seria de 26%.
Margem financeira bruta: crescimento de 4% a 8%, impulsionado pela Selic ainda elevada e pelo novo mix de crédito com maior peso em pessoa física.
Provisões: entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões, volume que ainda reflete a digestão dos créditos problemáticos do agro.
Carteira de crédito: expansão de 0,5% a 4,5%, com crescimento concentrado em pessoa física e retração controlada no agronegócio.
A amplitude do guidance (R$ 4 bilhões de diferença entre piso e teto do lucro) é um sinal claro de que a própria gestão reconhece a incerteza. Se você investe em ações e quer entender as implicações tributárias desses dividendos, confira o guia completo sobre Tributação de investimentos no Brasil: guia completo 2026.
As ações BBAS3 acumulam queda de 9,5% nos últimos 12 meses, negociando na faixa dos R$ 24,44. O papel iniciou 2026 cotado a R$ 21,92 e se recuperou parcialmente, mas segue bem abaixo das máximas de 2024. O ROE (retorno sobre patrimônio), que já foi superior a 20%, deve ficar na faixa de 10% a 13% em 2026 segundo o guidance, um patamar que desanima quem compara com os pares privados.
O segundo trimestre de 2026 será o momento decisivo, segundo o BTG. É nesse período que vencem os primeiros empréstimos da última safra, já concedidos sob a nova política de crédito mais conservadora. Se a inadimplência mostrar estabilização ou queda, o mercado pode rever o desconto aplicado ao papel. Se piorar, o piso do guidance (R$ 22 bilhões) fica sob ameaça.
Quem acompanha o Banco do Brasil e quer se aprofundar na análise do papel pode conferir o artigo sobre Como investir em Banco do Brasil (BBAS3), que traz uma visão completa sobre os fundamentos da empresa.
Enquanto o Banco do Brasil lida com a ressaca do agro, os bancos privados vivem momento diferente. O próprio BTG Pactual (BPAC11) encerrou 2025 com lucro recorde de R$ 16,7 bilhões e ROAE de 26,9%. No quarto trimestre, o lucro ajustado foi de R$ 4,6 bilhões, alta de 40,3% no ano. A diferença de trajetória é gritante.
Itaú, Bradesco e Santander também navegam com mais conforto, beneficiados por carteiras de crédito mais diversificadas e menor exposição ao agronegócio. O Banco do Brasil, por ser o principal agente de política agrícola do governo, carrega um risco de concentração setorial que os pares privados simplesmente não têm.
Isso não significa que BBAS3 seja um mau investimento. A ação negocia com desconto relevante frente aos pares, paga dividendos acima da média do setor e tem potencial de valorização se (e quando) o agro normalizar. A questão, como o BTG reforça, é a visibilidade sobre quando isso vai acontecer.
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O cenário pra Banco do Brasil nos próximos meses depende de três variáveis principais. A primeira é a evolução da inadimplência no agro: se o pico vier no 2T26 como o mercado espera, o segundo semestre pode trazer alívio. A segunda é a Selic: enquanto os juros seguirem altos, a margem financeira do banco se beneficia, mas o custo de crédito também aumenta. A terceira é a safra 2026/2027: previsões iniciais são razoáveis, mas o clima pode mudar tudo.
O BTG Pactual resume bem a situação: o Banco do Brasil está num processo de recuperação, mas a escada é longa e cada degrau pode trazer uma surpresa negativa. Pro investidor, o recado é que posições em BBAS3 exigem convicção de longo prazo e tolerância à volatilidade no curto prazo. A ação está barata, mas barato pode ficar mais barato se o agro decepcionar novamente.
O mercado vai olhar com lupa o resultado do 2T26, previsto pra agosto. Até lá, a recomendação neutra do BTG funciona como um termômetro da cautela que domina o consenso dos analistas sobre o papel.
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