
A temporada de balanços do 1T26 está pra começar e o mercado já colocou três nomes na mira: B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11) e XP (XP na Nasdaq). As três movem o ecossistema de mercado de capitais brasileiro, mas devem entregar resultados bem diferentes entre janeiro e março. Segundo projeções compiladas pelo banco Safra, o BTG desponta como favorito pra repetir a dose de recordes, com lucro líquido estimado em R$ 4,39 bilhões, alta de cerca de 30% na comparação anual.
A B3, operadora da bolsa, vem logo atrás, embalada por um volume financeiro negociado bem acima do ano passado. Já a XP deve ser a retardatária do trio, com crescimento de receita na casa de 8% YoY e recomendação neutra dos analistas. Pra quem acompanha o setor financeiro na B3, o trimestre promete desenhar um quadro claro de quem está ganhando mercado e quem está só surfando a onda.
O BTG chega ao 1T26 na sequência de um 4T25 que bateu recorde absoluto. No último trimestre de 2025, o banco reportou lucro líquido ajustado de R$ 4,59 bilhões, com alta de 40,3% YoY e avanço de 1,1% QoQ. O retorno sobre patrimônio (ROAE) ficou em 27,6%, um nível que coloca o banco em outro patamar de rentabilidade em relação aos pares tradicionais.
Pro primeiro trimestre deste ano, a expectativa do Safra é que o BTG entregue receita crescendo 29% na comparação anual, com leve recuo de 3% frente ao 4T25 recorde. O lucro líquido projetado de R$ 4,39 bilhões representaria alta de 30% YoY, com ROE em torno de 24,5%. Mesmo com desaceleração sazonal natural, o número seguiria acima do que a maioria dos grandes bancos brasileiros consegue entregar.
A diversificação é o grande trunfo. Os analistas apontam que a combinação de Wealth Management, crédito corporativo e a operação de banco de varejo (que vem ganhando escala) deve sustentar a linha de receita mesmo em trimestres mais fracos pra o segmento de Investment Banking. Nos últimos anos o BTG transformou a arquitetura do seu balanço, reduzindo dependência do ciclo de IPOs e emissões pra depender mais de receitas recorrentes.
Vale lembrar que entender a composição do balanço é fundamental pra avaliar a qualidade desse lucro. Quem está começando pode dar uma olhada no guia Balanço Patrimonial: o que é e como funciona antes de mergulhar nos números do release. A rentabilidade do BTG vem justamente da forma como o banco aloca capital no patrimônio.
A B3 tem uma tese mais simples de acompanhar. Como operadora da bolsa, a receita da companhia está amarrada ao volume financeiro negociado diariamente (ADTV). E aqui os números estão bem acima do que o mercado esperava no começo do ano.
Em março, o ADTV total atingiu R$ 37,3 bilhões, com queda de 5% em relação a fevereiro mas avanço robusto de 48% na comparação anual. O fluxo estrangeiro seguiu comprador ao longo do trimestre, algo que tinha começado a aparecer com força no 4T25 e virou tendência. O cenário de volatilidade elevada puxou ainda mais operações, especialmente em derivativos e no segmento de ações.
O Safra elevou as estimativas pra B3 após os dados operacionais de março e revisou as premissas macro pra cima. O preço-alvo ficou em R$ 23 por ação, com viés construtivo. A leitura do banco é que, enquanto houver volatilidade alta e atividade intensa no mercado de capitais, a B3 segue colhendo os frutos. O ponto de atenção é que boa parte da receita variável vem justamente desse volume, então uma normalização mais rápida do cenário pode pressionar a frente de margem.
Pra quem quer entender o contexto, o funcionamento do Ibovespa ajuda a dimensionar como o humor do mercado vira receita pra B3. Quanto mais o principal índice gira, mais a bolsa fatura.
A XP, que já foi o nome mais quente do setor entre 2020 e 2022, segue em um processo de digestão. Pro 1T26, a projeção aponta crescimento de receita de apenas 8% YoY, bem abaixo dos dois concorrentes citados. A recomendação dos analistas permanece neutra, com preço-alvo de US$ 23 pros papéis listados na Nasdaq.
O desafio da XP passa por dois eixos. Primeiro, a competição crescente no segmento de assessoria de investimentos, com BTG e Itaú (via Íon) avançando com força em canais digitais e na captação de altos patrimônios. Segundo, a mudança no perfil de alocação do investidor brasileiro, que com juros ainda elevados voltou a priorizar renda fixa em detrimento da renda variável e produtos de maior margem pra corretora.
A receita líquida e a captação líquida (NNM) serão os dois indicadores mais acompanhados no release. Se vierem fracos, o mercado pode testar o suporte atual dos papéis. Se surpreenderem, existe espaço pra repricing considerando que o múltiplo atual já embute pessimismo.
A temporada do 1T26 chega num momento em que o custo de capital no Brasil segue no centro do debate. Com a Selic ainda em nível restritivo, o impacto na rentabilidade dos bancos vem de duas pontas: por um lado, o juro alto comprime a demanda por crédito de consumo; por outro, sustenta spreads bancários e torna mais fácil monetizar posições de tesouraria.
Quem entende a mecânica dos juros sabe que essa dinâmica não é linear. O artigo como a Selic afeta seus investimentos detalha como a taxa básica se propaga pelas linhas de receita de bancos e corretoras. BTG e B3 tendem a se beneficiar em diferentes frentes; XP sofre mais quando o juro alto empurra o investidor pra renda fixa simples, onde a corretora cobra menos.
Outro ponto que vai aparecer nos releases é a exposição a crédito corporativo. O BTG reforçou provisões ao longo de 2025 justamente antecipando um cenário de inadimplência mais alta no agro e em algumas cadeias industriais. Se o trimestre vier com provisões adicionais, isso pode puxar o lucro pra baixo. Mas também indicaria conservadorismo, algo que historicamente o mercado valoriza.
As divulgações do setor financeiro devem se concentrar entre a última semana de abril e a segunda semana de maio. Além do número de lucro em si, três linhas merecem atenção especial:
1. ROE ajustado. Pro BTG, o mercado vai cobrar ROE acima de 23%. Abaixo disso, o múltiplo atual (8,1x P/L 2025, 31% abaixo da média histórica) fica sob pressão. Pra B3, a métrica é diferente: o foco é margem EBITDA e evolução da receita recorrente.
2. Guidance pra 2026. O BTG já sinalizou um "novo normal" de rentabilidade, indicando que o ROE deve se estabilizar entre 22% e 24% nos próximos trimestres. Qualquer revisão pra cima seria muito bem recebida.
3. Captação líquida (NNM). XP e BTG disputam o mesmo bolso do investidor pessoa física de alta renda. O dado de captação líquida vai mostrar, em números, quem está ganhando essa briga no começo do ano.
O consenso entre analistas hoje é que o BTG deve entregar o melhor balanço em termos relativos, combinando crescimento, rentabilidade e diversificação. A B3 aparece como aposta segura, sustentada pelos volumes fortes da bolsa. XP precisa mostrar que está virando a chave operacional. Em qualquer cenário, as três vão dar o tom pra o setor financeiro na B3 nas próximas semanas e ajudar a calibrar o humor do mercado pros trimestres seguintes.
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